Preconceitos Antissemitas

Inquisição antissemita

Foram inúmeras as famílias nobres que, em Portugal, como na Espanha, absorveram sangue de árabe ou mouro. Havia inclusive frades polígamos e femeeiros. Muitos Mendo, tal como o D. Mendo Nogueira, cavaleiro da Ordem dos Templários, em 1089, suposto ascendente desta família, que pelo nome e pelo fervor cristão se diriam sem mancha nenhuma de islamismo na ascendência foram portugueses de avô ou avó moura ou árabe. Nenhum elemento de identificação mais inseguro de origem na sociedade portuguesa que os nomes de pessoa e de família – tão embaralhadas andaram sempre na Península Ibérica as etnias, as culturas e as classes sociais.

Afirma Gilberto Freyre em sua obra prima, Casa Grande & Senzala: “o que sucedeu com os mouros, verificou-se também, até certo ponto, com os judeus. De uns e de outros deixou-se penetrar, em suas várias camadas, a sociedade portuguesa” (1994: 215).

Aos antigos servos permitiu-lhes, já como homens livres, envolverem-se em aventuras mercantis, além-mar, cheias de possibilidade de mobilidade social e econômica. Para o Brasil, é provável que tenham vindo, entre os primeiros povoadores, numerosos indivíduos de origem moura, junto com cristãos-novos e portugueses velhos. A colonização do Brasil se fez muito à portuguesa, isto é, heterogeneamente, quanto a procedências étnicas e sociais.

Tanto quanto do contato com os mouros, resultaram da convivência com os judeus traços inconfundíveis sobre os portugueses colonizadores do Brasil. “As relações dos portugueses com os judeus, exatamente como as relações com os mouros, quando se avermelharam em conflito, a mística de que se revestiram não foi, como em grande parte da Europa, a de pureza de raça, mas a de pureza de fé” (1994: 226).

Freyre escreve, em época de ascensão no nazismo na Alemanha, algo que pode ser visto como um sentimento antissemita. “Em essência, o problema do judeu em Portugal foi sempre um problema econômico criado pela presença irritante de uma poderosa máquina de sucção operando sobre a maioria do povo, em proveito não só da maioria israelita como dos grandes interesses plutocráticos. Interesses de reis, de grandes senhores e de ordens religiosas. Técnicos da usura, tais se tornaram os judeus em quase toda a parte por um processo de especialização quase biológica que lhes parece ter aguçado o perfil no de ave de rapina, a mímica em constantes gestos de aquisição e de posse, as mãos em garras incapazes de semear e de criar. Capazes só de amealhar” (1994: 226).

Freyre afirma que “circunstâncias históricas assim conformaram os judeus. Max Weber atribui o desenvolvimento dos judeus em povo comercial a determinações ritualistas proibindo-lhes, depois do exílio, de se fixarem em qualquer terra e, portanto, na agricultura. E salienta-lhes o dualismo de ética comercial permitindo-lhes duas atitudes: uma para com os correligionários; outra para com os estranhos. Contra semelhante exclusivismo, era natural que se levantassem ódios econômicos. Em virtude daquela ética ou moralidade dupla, prestaram-se os judeus em Portugal aos mais antipáticos papeis na exploração dos pequenos pelos grandes. Por aí se explica que tivessem gozado da proteção dos reis e dos grandes proprietários e, à sombra dessa proteção, prosperado como grandes plutocratas e capitalistas. Concentrando-se nas cidades e nos portos marítimos, concorreram para a vitória da burguesia sobre a grande propriedade territorial, aliada mais à Igreja do que aos reis” (1994: 227).

Não expressa preconceito antissemita a seguinte hipótese? “Para o pendor português para viver de escravos parece ter concorrido o sefardim [diz-se de ou judeu cuja ascendência remonta às comunidades judaicas ibéricas (Espanha e Portugal) estabelecidas na Idade Média e dispersas por várias regiões (Europa ocidental, norte da África, Turquia, Bálcãs, Américas) após a expulsão da Espanha em 1492, ou que é membro de comunidade que apresenta influência cultural-religiosa do judaísmo ibérico medieval]. Inimigo do trabalho manual, o judeu desde remotos tempos inclinou-se à escravidão” (1994: 228).

“Pode-se atribuir à influência israelita muito do mercantilismo no caráter e nas tendências do português: mas também é justo que lhe atribuamos o excesso oposto: o bacharelismo. O legalismo. O misticismo jurídico. O próprio anel no dedo, com rubi ou esmeralda, do bacharel ou doutor brasileiro, parece-nos reminiscência oriental, de sabor israelita. Outra reminiscência sefardínica: a mania dos óculos e do pincenê – usados também como sinal de sabedoria ou de requinte intelectual e científico. (…) E a mania de sermos todos doutores em Portugal e sobretudo no Brasil (…) não será outra reminiscência sefardínica?” (1994: 228/9).

A dedução de Freyre é que dessa burguesia letrada que se aristocratizou rapidamente pela cultura universitária e por serviços intelectuais e jurídicos à Monarquia, grande parte seria composta de cristãos-novos. Como ele diz: “rebentos de outra burguesia: a de comerciantes, de traficantes, de agiotas, de intermediários”. Ele compreende que “os cristãos-novos, vindos da usura, do comércio de escravos e da agiotagem, encontrassem nos títulos universitários de bacharel, de mestre e de doutor a nota de prestígio social que correspondesse às suas tendências e ideais sefardínicos. Que encontrassem na Advocacia, na Medicina e no Ensino Superior a maneira ideal de se aristocratizarem” (1994: 230).

“Concorreram os judeus em Portugal, e em partes da Espanha, para o horror à atividade manual e para o regime do trabalho escravo – tão característico da Espanha e de Portugal” (idem; ibidem).

Conclui Freyre que “tudo isto nos mostra como, mesmo no caso do judeu, foi intensa a mobilidade e livre a circulação por assim dizer de uma raça a outra; e, literalmente, de uma classe a outra. De uma a outra esfera social”.

Tudo isto foi escrito por Gilberto Freyre pouco antes do holocausto, isto é, o massacre de judeus e de outras minorias, efetuado nos campos de concentração alemães durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Com base em ideologia antissemita recorreu-se ao genocídio – extermínio deliberado de uma comunidade, grupo étnico ou religioso – para “depurar a raça”.

 

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