Familia Patriarcal Brasileira

O mal de toda familia humana é que todos querem ser pai

Gilberto Freyre prefaciou sua obra prima, Casa Grande & Senzala, em 1933. Sua prosa talvez choque aos olhos de hoje em muitas passagens preconceituosas. Porém, o que mais se destaca é sua erudição sociológica e antropológica. Trata de fenômenos culturais específicos da formação do Brasil como nenhum outro autor jamais tratara. Vale sempre o reler e extrair algumas reflexões saborosas, embora possamos delas discordar em termos do “politicamente correto” contemporâneo. Basta recordar o choque cultural que tivemos com a pesquisa que constata, em cerca de ¼ dos brasileiros, ainda a permanência do velho impulso primitivo ao estupro. Há muitos incultos violentos.

No que se refere às características da família brasileira, Freyre afirma que “a nossa verdadeira formação social se processa em 1532 em diante, tendo a família rural ou semi-rural por unidade, quer através de gente casada vinda do reino, quer das famílias aqui constituídas pela união de colonos com mulheres caboclas ou com moças órfãs ou mesmo à-toa, mandadas vir de Portugal pelos padres casamenteiros” (1994: 22).

A colonização na América portuguesa repousaria sobre a instituição da família escravocrata; da casa-grande; da família patriarcal. Sendo que nestas bandas acrescida a família de muito maior número de bastardos e dependentes em torno dos patriarcas, mais “feemeiros” que os da América do Norte e um pouco mais soltos, talvez, na sua moral sexual.

“É possível que se degredassem de propósito para o Brasil, visando ao interesse genético ou de povoamento, indivíduos que sabemos terem sido para cá expatriados por irregularidades ou excessos na sua vida sexual: por abraçar e beijar, por usar de feitiçaria para querer bem ou mal, por bestialidade, molície, alcovitice. A ermos tão mal povoados, salpicados, apenas, de gente branca, convinham superexcitados sexuais que aqui exercessem uma atividade genésica acima da comum, proveitosa talvez, nos seus resultados, aos interesses políticos e econômicos de Portugal no Brasil” (1994: 21).

Freyre refere-se a esses indivíduos como “garanhões desbragados”. Foram “atraídos pelas possibilidades de uma vida livre, inteiramente solta, no meio de muita mulher nua”!

Ele fala das ligações de muitos dos degredados, de cristãos-novos, de todos esses europeus “na flor-da-idade”, machos são e vigorosos, com mulheres gentias, também limpas e sãs. “Tais uniões devem ter agido como ‘verdadeiro processo de seleção sexual’, dada a liberdade que tinha o europeu de escolher mulher entre dezenas de índias. De semelhante intercurso sexual só podem ter resultado bons animais, ainda que maus cristãos ou mesmo más pessoas” (1994: 21). Um espanto tal crueza, não?

“O Brasil formou-se, despreocupados os seus colonizadores da unidade ou pureza de raça. Durante quase todo o século XVI a colônia esteve escancarada a estrangeiros, só importando as autoridades coloniais que fossem de fé ou religião cristã”. Em Portugal, isso queria dizer que somente católicos podiam adquirir sesmarias.

O que barrava então o imigrante era a heterodoxia. Não podia ser herege. Do que se fazia questão era da saúde religiosa: a sífilis, a bexiga, a lepra entraram livremente trazidas pelos europeus e negros de várias precedências. Os originários de terras protestantes ou já eram católicos ou aqui se converteram: o bastante para que fossem recebidos na intimidade da nossa vida social e até política, aqui constituíssem família casando com a melhor gente da terra e adquirissem propriedade agrícola, influência e prestígio.

“Muitas brasileiras, porém, tornaram-se baronesas e viscondessas do Império sem terem sido internas dos Recolhimentos: analfabetas, algumas; outras fumando como umas caiporas; cuspindo no chão; e ainda outras mandando arrancar dentes de escravas por qualquer desconfiança de xumbergação do marido com as negras” (1994: 345).

“Isto no século XIX. Imagine-se nos outros: no XVI, no XVII, no XVIII. Neste, esteve no Brasil uma inglesa que achou horrorosa a situação das mulheres. Ignorantes. Beatas. Nem ao menos sabiam vestir-se. Porque a julgar por Mrs. Kindersley, que não era nenhuma parisiense, nossas avós do século XVIII trajavam-se que nem macacas: saia de chita, camisa de flores bordadas, corpete de veludo, faixa. Por cima desse horror de indumentária, muito ouro, muito colares, braceletes, pentes. As mocinhas ou meninotas não eram feias; notou, porém, Mrs. Kindersley que as brasileiras envelheciam depressa; seu rosto tornava-se logo de um amarelo doentio” (id.ibid.).

“Resultado, decerto, dos muitos filhos que lhes davam os maridos; da vida morosa, banzeira, moleirona, dentro de casa; do fato de só saírem de rede e debaixo de pesados tapetes de cor – modus gestandi lusitanas (…). Algumas senhoras até nas igrejas entravam de rede, muito anchas e triunfantes, nos ombros dos escravos” (id.ibid.).

Foi geral, no Brasil, o costume de as mulheres casarem cedo. Aos doze, treze, quatorze anos. Com filha solteira de quinze anos dentro de casa já começavam os pais a se inquietar e a fazer promessas a Santo Antônio ou São João. Antes dos vinte anos, estava a moça solteirona.

“O que hoje é fruto verde, naqueles dias tinha-se medo que apodrecesse de maduro, sem ninguém o colher a tempo”. Com o preconceito da “virgindade perder logo o gosto (…) quem tivesse sua filha, que a casasse meninota. Porque depois de certa idade, as mulheres pareciam não oferecer o mesmo sabor de virgens ou donzelas que aos doze ou treze anos. Já não conservavam o provocante verdor de meninas-moças apreciado pelos maridos de trinta, quarenta anos. Às vezes cinquenta, sessenta, e até setenta” (1994: 346). Vem de longe a tradição de violentador do “macho” brasileiro, inclusive com o estupro legitimado seja pelo casamento religioso, seja pelo civil!

Quase todos os viajantes que visitaram durante o tempo da escravidão contrastam a frescura encantadora das meninas com o desmaiado rosto e o desmazelo do corpo das matronas de mais de dezoito. Depois dos vinte, decadência. Ficavam gordas, moles, criavam papada. Tornavam-se pálidas. Outras ficavam corpulentas, mas feias, de buço, com um ar de homem… Elas se tornavam (e eram tratadas como) meras matrizes para atender a reprodutores – e ao povoamento do País. Seu papel histórico era procriar força de trabalho abundante, braços para a economia rural.

Mafalda revolucionária

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